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19 de Janeiro de 2019

Diário de uma advogada: salto alto na lama

Ana Paula, Advogado
Publicado por Ana Paula
há 2 anos

Desde que me “entendo por gente” queria cursar direito, com o passar dos anos fui apenas solidificando o desejo de criança. Aconteceu que passei no vestibular no ano de 2007 e comecei a cursar Direito, no primeiro semestre do ano de 2008. De família simples e sem muito dinheiro, a Faculdade parecia um sonho.

Ao começar, como muitos colegas advogados achei que ingressaria na magistratura, promotoria, defensoria, algumas das auditorias, enfim o serviço público. Ocorre que, eu me apaixonei pela a advocacia de carreira militante, as borboletas no estômago, coração palpitante, ansiedade, como diz na minha terra “suadeira”, sintomas da paixão. Ah! Advocacia!

Sempre li muito, desta feita sempre escrevi, e nasceu no meu coração manter e alimentar uma página jurídica, mas com a correria é bem difícil, entretanto estou tornando esse sonho realidade através do JusBrasil, o que desemboca em uma das séries – Diário de uma advogada – aonde vou dividir com os leitores, algumas experiências que vivencio no âmbito da advocacia – umas divertidas e outras nem tanto.

Como é sabido, resido no estado do Ceará e atou na cidade de Fortaleza e região Metropolitana, tem muita história e estória, essa semana, por exemplo algo me chamou atenção. Uma cliente do município de Itaitinga, me contratou para auxiliá-la – direito de vizinhança – aliás, no popular “briga de vizinho”.

Conversa vai, conversa vem - fechamos contrato e bingo, a levei na delegacia da cidade. Muita calma nessa hora. Segunda-feira, meio dia, ainda não tinha comido nada por causa do trabalho, mas o direito do cliente é sempre mais importante que a nossa necessidade, certo? Correto! Abri a porta do carro, ela entrou, passamos por uma via principal do bairro que ela mora, asfaltada, porém mais parecia uma cratera de tão esburacada, mas enfim chegamos a BR-116, dali até a delegacia tem-se em torno de 10 KM.

A entrada da cidade diz muito sobre o descaso do Estado: asfalto mal feito, muitos buracos (o Governo deveria oferecer manutenção aos nossos veículos, ou simplesmente parar de assaltar o bolso do contribuinte e deixar de fazer asfalto de açúcar, chove/dissolve – desculpem, notas para outra coluna). Adentramos a via principal da cidade (Itaitinga), dobra a direita, dobra a esquerda, de novo – uma viela de pedra bruta, desnivelada, no lado direito mato do outro, terrenos baldios e abandonados, ao final uma fossa aberta e putrefata, galinhas e gatos passeando formavam o tapete de entrada para o portão enferrujado da delegacia, que não media de ponta a ponta: um metro.

Adiante uma saleta sem ventilador ou ar-condicionado, na direita três cadeiras, no que creio ser a cor azul, pois os rasgos mostravam apenas espuma amarela, as paredes outrora brancas estavam pretas, o chão não tinha azulejo, o servidor robusto, com os cabelos grisalhos, espalitando os dentes sentado em uma cadeira de ferro. Quando chegamos ele já foi dizendo: - É B. O? O escrivão está almoçando. (SIC)

Eu retruquei, de forma suave – Viemos de longe, poderia pedir que o escrivão nos atendesse? Ele assentiu. Na antessala uma mesa de refeição ladeada por bicicletas suspensas na parede, gaiolas de pássaros e sucata de moto mais ao fundo. Enfim chegamos a saleta do escrivão, o cheiro de mofo insuportável, Split 5.600 BTUs velinha, arquivos espalhados no chão, nas cadeiras em todos os locais. Não aguentei e soltei: - Este lugar não tem condições salubres de trabalho!

Os servidores conformados falaram: - O Estado nos esquece, faz parte, não temos muito movimento, aí reformar aqui não traz visibilidade. (SIC). Ora, quando assistia filmes norte-americanos, que via aqueles Tribunais e escritórios, pensava vou vestir meu salto alto e desfilar. Ledo engano. Finquei literalmente os pés na lama.

Em terra de bananas, o que esperar? Aquela delegacia é exatamente o retrato da nossa advocacia, esperamos e pensamos algo, mas a realidade é desfocada e distorcida. Nesse dia eu percebi, se quiser advogar, o salto alto fiará apenas no imaginário das pessoas.

3 Comentários

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Prezada Ana

Sim, o amargo do salto ou terno bem passado, foge da realidade de nossos sonhos.
Aqui na minha região, delegacia de polícia é um caso de polícia.
Resta-nos, olhar para o alto, respirar fundo e dizer - Meu Deus !!! continuar lendo

Realmente doutora Ana Paula, a verdade cruel do dia a dia não é tão glamourosa como nos filmes, novelas e romances. E nesta sofrida Terra de Santa Cruz, país continente, existem diferenças e desníveis atrozes, tanto em instalações como nos atores da cena jurídica. As dependências do judiciário, em geral, e do MP,destoam dos restantes órgão públicos, graças à auto gestão total, especialmente financeira que conquistaram. Nas capitais, são as ilhas de excelência que conhecemos, até pecando pelo exagero e ostentação.

Contudo, não esmoreça. Em todas as áreas profissionais, quem pretender decolar numa carreira, deve fazer sacrifícios e lidar com o amálgama nacional, que é sofrível. Sucesso, não deixe de publicar o "Diário de uma Advogada", que será certamente interessante. E não olvide o salto alto. (O calçado, não o figurado.) continuar lendo

Obrigada Dr., por suas palavras de ânimo! Forte abraço! continuar lendo